Hormônio prejudica a memória? O que o estudo que assustou uma geração realmente mostrou

Vinte anos depois do WHI, a leitura desse estudo mudou — e a conversa no consultório
precisa acompanhar.
Você entra na cozinha e esquece o que foi buscar. Procura uma palavra que sempre
soube e ela não vem. Aos 48 anos isso assusta mais do que aos 30, e quase sempre vem
acompanhado de uma pergunta que ouço toda semana: terapia hormonal não aumenta o
risco de Alzheimer?
Essa pergunta tem endereço. Em 2004, o JAMA publicou o braço de estrogênio isolado
do Women’s Health Initiative— um ensaio clínico randomizado, o desenho de maior
peso na medicina. O achado foi desconfortável: nenhuma proteção cognitiva e, quando
os dados foram somados aos do braço com progestágeno, risco maior de demência.
O detalhe que raramente chega à manchete é a idade. Aquelas mulheres tinham entre 65
e 79 anos, e muitas iniciaram hormônio mais de uma década após a última menstruação.
O estudo respondeu com rigor a uma pergunta: o que acontece ao começar terapia
hormonal aos 70. Ele não respondeu à sua, que é outra — o que acontece aos 50.
Três coisas mudaram desde então.
A primeira é o peso do tempo. Análises mais recentes, de biomarcadores e de tecido
cerebral, sugerem um cenário diferente para quem inicia a terapia perto da menopausa.
Sugerem, não provam: são estudos observacionais, que acompanham grupos em vez de
sortear tratamentos, e não conseguem excluir que quem usa hormônio já fosse mais
saudável antes. Por isso, estrogênio não se prescreve com a promessa de prevenir
Alzheimer. Prescreve-se por sintomas, tempo de menopausa e perfil de risco — seu,
individual.
A segunda mudança é entender o que você sente. A névoa mental da transição
para a menopausa é real, tem base fisiológica e, na maioria das mulheres, é
passageira. Ela costuma vir junto com noites mal dormidas, ondas de calor e
sobrecarga. Isso não significa o início de uma demência; tratar o sintoma como se
fosse demência, muitas vezes, só aumenta a preocupação e piora a sensação.
A terceira é o que realmente protege o cérebro. Em 2024, uma comissão publicada no
The Lancet reuniu 14 fatores modificáveis associados a cerca de 45% dos casos de
demência no mundo: pressão alta, perda auditiva não tratada, sedentarismo, diabetes,
tabagismo, isolamento social, sono ruim, entre outros. Nenhum deles é glamouroso.
Todos estão ao seu alcance nesta semana, com ou sem hormônio.
Se aos 45, 50 ou 55 você sente que sua cabeça não é mais a mesma, não está
imaginando e não está sozinha. Leve isso para a consulta com nome e sobrenome:
quando começou, o que piorou, como anda o seu sono. A decisão sobre hormônios não
cabe numa manchete de vinte anos atrás. Ela se constrói a dois, com quem conhece a
sua história.

Dra. Mariana Halla — médica especialista em saúde feminina, menopausa e
longevidade.
1. Estrogen Plus Progestin and the Incidence of Dementia and Mild Cognitive Impairment in
Postmenopausal Women: The Women’s Health Initiative Memory Study: A Randomized
Controlled Trial
2. Conjugated Equine Estrogens and Incidence of Probable Dementia and Mild Cognitive
Impairment in Postmenopausal Women: Women’s Health Initiative Memory Study
3. Conjugated Equine Estrogens and Global Cognitive Function in Postmenopausal Women:
Women’s Health Initiative Memory Study
4. Association Between Menopausal Hormone Therapy and Alzheimer Disease
Neuropathology
5. Dementia prevention, intervention, and care: 2024 report of the Lancet standing
Commission