O avanço do comércio ilegal de medicamentos para emagrecimento na fronteira entre Brasil e Paraguai tem preocupado autoridades sanitárias e intensificado ações de fiscalização.
Substâncias ainda em fase experimental, como a retatrutida, estão sendo trazidas clandestinamente ao país — muitas vezes escondidas em bagagens, veículos e até junto ao corpo de passageiros.
Em operações recentes na região de Foz do Iguaçu, auditores da Receita Federal e agentes da vigilância sanitária identificaram um crescimento significativo na apreensão das chamadas “canetas emagrecedoras”.
Somente nos três primeiros meses de 2026, o valor das apreensões no Paraná já supera todo o montante registrado ao longo de 2025, ultrapassando R$ 11 milhões.
A retatrutida, desenvolvida pela farmacêutica Eli Lilly, ainda não foi aprovada para uso humano em nenhum país. A substância está em fase final de testes clínicos e tem apresentado potencial de perda de peso superior ao de medicamentos já conhecidos, como os à base de semaglutida e tirzepatida.
Mesmo sem autorização, versões irregulares do produto circulam livremente em cidades paraguaias e entram no Brasil por meio de redes informais de venda.
Especialistas alertam que o uso dessas substâncias representa riscos relevantes à saúde. Sem controle sanitário, não há garantia sobre a composição, a dosagem ou as condições de armazenamento. O transporte inadequado — frequentemente em ambientes quentes — pode comprometer ainda mais a segurança do produto.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária proíbe a entrada no país de medicamentos sem registro, incluindo diversas canetas à base de tirzepatida comercializadas no Paraguai. Mesmo quando a importação individual é permitida, é obrigatória a apresentação de receita médica e o respeito ao limite para uso próprio — exigências que raramente são cumpridas nos casos apreendidos.
O apelo desses produtos está diretamente ligado ao alto custo dos tratamentos no Brasil. Medicamentos regularizados podem ultrapassar R$ 1,5 mil por unidade, enquanto versões ilegais vendidas no exterior chegam a custar menos de R$ 300. A diferença de preço, aliada à promessa de resultados rápidos, tem impulsionado a procura.
Para as autoridades, o cenário também aponta para a atuação de organizações criminosas. O transporte discreto, o alto valor agregado e a forte demanda tornam esse tipo de contrabando altamente lucrativo.
Investigações indicam que cargas com centenas — e até milhares — de unidades têm sido interceptadas com frequência, algumas avaliadas em milhões de reais.
Além dos riscos à saúde pública, o envolvimento nesse tipo de prática pode resultar em punições severas. Dependendo do caso, os responsáveis podem responder por tráfico de medicamentos e outros crimes, com penas que ultrapassam dez anos de prisão.
Enquanto a retatrutida ainda aguarda a conclusão dos estudos clínicos e eventual liberação, autoridades reforçam o alerta: o uso de versões ilegais, sem procedência comprovada, pode causar efeitos graves e imprevisíveis.
fonte: obemdito



