Família acusa hospital de esquecer pinça cirúrgica em paciente que morreu na véspera de Natal

O fim de ano da família Cardoso de Brito foi marcado pela dor e pela indignação. Manuel Cardoso de Brito, de 68 anos, morreu no dia 24 de dezembro, véspera de Natal, após complicações decorrentes de duas cirurgias realizadas no Hospital Municipal de João Pinheiro, no Noroeste de Minas Gerais. A família acusa a unidade de saúde de ter esquecido uma pinça cirúrgica dentro do corpo do paciente durante a primeira operação, o que teria provocado a necessidade de uma segunda intervenção.

A Secretaria Municipal de Saúde confirmou, por meio de nota pública divulgada pela Prefeitura de João Pinheiro, que houve a retirada de um corpo estranho do paciente e informou que o caso está sendo apurado.

Manuel dedicou 26 anos de sua vida ao serviço público municipal, atuando como gari. Conhecido pela rotina disciplinada, acordava diariamente às quatro da manhã para trabalhar. Amigos e familiares o descrevem como um homem honesto, trabalhador e o principal alicerce da família.

“Meu pai era tudo. Era o nosso esteio. Tudo o que sou devo a ele”, afirmou emocionado o filho, o serralheiro Samuel Cardoso Rezende de Brito, de 31 anos. Segundo ele, Manuel sempre enfrentou as dificuldades com dignidade e caráter. Há cerca de cinco anos, após sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC), precisou se aposentar, mas permaneceu próximo da família.

A esposa de Manuel, de 51 anos, está profundamente abalada com a perda. Samuel assumiu a responsabilidade de cuidar da mãe e da irmã, que também apresentam problemas de saúde. “Ele era fechado, mas era um homem de fibra. Sempre ouviu e fez de tudo para resolver os problemas da família. Era a nossa vida”, disse o filho.

Internação e segunda cirurgia

Conforme o Boletim de Ocorrência (BO), Manuel foi internado no dia 5 de dezembro e submetido a uma cirurgia de urgência após diagnóstico de úlcera gástrica. A equipe médica informou à família que o procedimento havia ocorrido normalmente. O paciente permaneceu dois dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e, posteriormente, foi transferido para o quarto.

Durante as visitas, Samuel percebeu que o pai apresentava dificuldade para se alimentar, além de sinais de dor e sonolência excessiva, relato confirmado pela cuidadora. Diante do quadro, a família solicitou esclarecimentos médicos.

No dia 11 de dezembro, após a realização de uma tomografia, profissionais teriam levado Manuel às pressas para uma nova cirurgia. Segundo os familiares, não houve explicação prévia nem autorização formal da família para o procedimento. “Eles chegaram e o levaram para a cirurgia sem comunicar ninguém, nem permitir que a cuidadora acompanhasse”, relatou Samuel.

Após a segunda intervenção, Manuel retornou à UTI, onde permaneceu internado por 13 dias. Ele não resistiu e morreu no dia 24 de dezembro. Na certidão de óbito, a causa da morte foi registrada como natural, decorrente de choque séptico e úlcera gástrica perfurada.

A família, no entanto, contesta a versão oficial. Para Samuel, o pai poderia estar vivo se não fosse o suposto erro médico. “Se isso não tivesse acontecido, tenho certeza de que ele teria passado o Natal e o Ano Novo com a gente”, lamentou.

Apuração e medidas legais

O advogado da família, Iuri Evangelista Furtado, informou que já foram adotadas medidas legais. Além de acompanhar as investigações da Polícia Civil, ele solicitou todos os prontuários, laudos, exames e registros clínicos e administrativos do Hospital Municipal.

“A família não busca vingança, mas sim a verdade, justiça e respeito à memória do senhor Manuel, além da garantia de que situações como essa não se repitam”, afirmou o advogado.

O caso segue sob apuração das autoridades competentes.

 

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