A declaração do então Secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, durante a implementação das primeiras Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) já prenunciava um desafio: o controle territorial de facções criminosas no Rio de Janeiro não seria facilmente desfeito. Um novo estudo revela que, em vez de recuar, grupos como o Comando Vermelho (CV) expandiram sua influência durante o programa de policiamento de proximidade.
O “Mapa Histórico dos Grupos Armados do Rio de Janeiro”, elaborado pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da UFF e o Instituto Fogo Cruzado, aponta que o período de implantação das UPPs (2008-2015) coincidiu com a ampliação da presença do Comando Vermelho. O fenômeno, apelidado de “efeito balão”, descreve como a pressão policial em áreas específicas impulsionou a migração de criminosos para outras regiões.
De acordo com a pesquisa, a presença da Polícia Militar nas favelas ocupadas incentivou membros do Comando Vermelho a se instalarem em áreas da região metropolitana, com foco na Baixada e Leste Fluminense. Essa estratégia permitiu que o grupo evitasse confrontos diretos com a polícia em seus territórios de origem, mantendo o controle nessas áreas.
O sociólogo Daniel Hirata, coordenador do Geni/UFF, destaca que a expansão das facções durante a era das UPPs, embora não intencional, foi diretamente influenciada pela política de segurança. “As UPPs tiveram um impacto para expansão do comando vermelho bastante importante”, afirma Hirata, ressaltando a falta de um planejamento metropolitano abrangente.
Atualmente, cerca de 4 milhões de moradores do Rio de Janeiro – 34,9% da população – vivem sob o domínio de facções e milícias, um aumento significativo em relação aos 2,5 milhões registrados em 2007. A pesquisa aponta que a “grande expansão” entre 2016 e 2020 foi impulsionada por oportunidades no mercado de terras, investimentos em infraestrutura urbana ligados a megaeventos e a desestruturação das políticas de segurança, incluindo o desmantelamento das UPPs e a intervenção federal na segurança pública.
Hirata enfatiza que o sucateamento das políticas públicas de segurança também facilitou o acesso das facções a novas regiões do estado. “O desmantelamento das UPPs entra no um contexto mais amplo de desmontagem do próprio Estado do Rio de Janeiro”, explica, citando a falência do estado em 2015 e o fim do sistema de bonificação para policiais.



