Chefe da comunicação da PRF no Paraná é afastado após reportagem sobre aumento de acidentes

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Foto: Arquivo pessoal

Via: G1

O chefe da comunicação da Polícia Rodoviária Federal (PRF) no Paraná, Fernando Oliveira, de 41 anos, foi dispensado do cargo depois de uma reportagem sobre aumento de acidentes com a redução do isolamento social, exibida pelo Bom Dia Brasil, em 15 de maio. 

Acidentes de trânsito voltam a aumentar com queda no índice de isolamento

A dispensa do cargo, que ocupava desde 2017, ocorreu na segunda (25). Concursado, Oliveira afirmou na quinta (28) que está na “geladeira”, cumprindo banco de horas, enquanto não é colocado de volta nas escalas de serviço operacional na Região Metropolitana de Curitiba e litoral.

“Foi um episódio claro de instrumentalização da assessoria de comunicação sem amparo técnico e a partir de interesses que não são púbicos. Interesses pessoais, políticos ou vinculados ao humor do presidente da República”, diz.

Após a reportagem ser exibida, ele conta que recebeu uma ligação do superior no Paraná dizendo que o conteúdo estava em desalinhamento com o recomendado pela instituição.

Para o ex-chefe da comunicação, o entendimento em Brasília foi de que houve defesa do isolamento social, além da exibição de fiscalização por radar portátil – considerado um tema sensível para o governo federal, conforme ofício da PRF de dezembro de 2019.

No mesmo dia da reportagem, o coordenador-geral de Comunicação da PRF, Anderson Poddis, enviou uma mensagem por aplicativo com um ofício assinado por ele determinando que os pedidos feitos por veículos da imprensa sejam repassados para Brasília.

O documento também diz que os materiais produzidos pelas equipes da PRF nos estados precisam de autorização, exceto para situações como prisões e apreensões.

“Em reforço à mensagem enviada aos Diretores, Superintendentes e Superintendentes executivos, diante das matérias totalmente desalinhadas que surgiram na imprensa hoje em diversas localidades do país, informo que está PROIBIDO pautar imprensa sem expressa autorização da CGCOM do conteúdo do release e da entrevista”, diz a mensagem, disponibilizada por Oliveira.

Determinação para que os pedidos feitos por veículos da imprensa sejam repassados para Brasília feita após a reportagem — Foto: Arquivo pessoal

 Determinação para que os pedidos feitos por veículos da imprensa sejam repassados para Brasília feita após a reportagem — Foto: Arquivo pessoal

   

Segundo o policial, a medida revelou a tentativa de exercer controle total sobre as pautas – até mesmo de estatísticas locais. “É um nível de controle sem precedentes”, afirma.

Três dias antes da reportagem, em 12 de maio, uma ordem de serviço da Coordenação-Geral de Comunicação Social da PRF orientou que as unidades regionais deveriam pautar os veículos de imprensa sobre a Operação Nacional de Segurança Viária, a partir de 13 de maio.

O documento diz para intensificar as ações de policiamento e fiscalização com mais presença policial em trechos críticos e “reduzir a quantidade de acidentes graves, mortos e feridos”.

Em abril, tinha crescido a quantidade de acidentes e feridos com a queda do índice de isolamento, como mostrou a reportagem. “Houve uma reação desproporcional de setores da polícia em Brasília”, diz Oliveira.

A assessoria do Palácio do Planalto informou que não vai comentar. O G1 entrou em contato e aguarda retorno da PRF em Brasília.

Ordem para apagar fotos

Uma conversa por aplicativo de mensagem mostra que o policial também recebeu, em 15 de maio, uma ordem da superintendência para apagar imediatamente as fotos que mostram radar da conta da PRF no Flickr – aplicativo para gerenciar e compartilhar imagens.

Oliveira conta que questionou e não cumpriu a ordem por não ter motivo. “Não tem motivação. É um registro histórico feito por um servidor pago, é um produto do trabalho do servidor. Não acatei e gerou mais um ruído”, explica.

Até o início da tarde desta sexta-feira (29), as fotos ainda estavam publicadas.

Sindicato diz que houve censura

Em nota, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná (Sindijor) afirmou que é um absurdo que a exoneração do jornalista tenha sido causada por censura e que a PRF está impedindo o acesso à informação.

“Essa mesma censura levou à exoneração um profissional qualificado, que simplesmente passou os dados da própria instituição para a produção da reportagem. Mas, vindo de um governo autoritário que notoriamente trata jornalista com desdém e, pior, incita seus seguidores a atacar justamente os profissionais que estão aqui para questionar e apontar os desmandos do presidente, não surpreende”, diz trecho.

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