Jovem que teve mãos decepadas teme perder forma de comunicação com a mãe surda

Ana Clara Oliveira, de 21 anos, vítima de uma violenta tentativa de feminicídio em Quixeramobim, no Ceará, revelou que um dos maiores medos após ter as mãos decepadas foi não conseguir mais se comunicar com a mãe surda. A jovem falou sobre o trauma em entrevista ao Diário do Nordeste nesta quarta-feira (20).

“Na ambulância eu pensei: meu Deus, eu nunca mais vou conseguir me comunicar com a minha mãe?”, relembrou.

A mãe de Ana Clara é surda e nunca aprendeu Língua Brasileira de Sinais (Libras). Ao longo dos anos, as duas criaram uma forma própria de comunicação por meio de gestos e sinais entendidos apenas entre elas. “Não tem uma pessoa no mundo que ela entenda mais do que eu”, contou.

Internada no Instituto Doutor José Frota (IJF), em Fortaleza, Ana Clara ainda recupera os movimentos das mãos, conseguindo mexer apenas os dedos. Segundo os médicos, a recuperação parcial pode levar entre seis meses e um ano.

As mãos da jovem foram reimplantadas durante uma cirurgia que durou cerca de 12 horas e mobilizou 15 profissionais da saúde. O crime aconteceu na madrugada de 1º de maio, quando ela foi atacada a golpes de foice pelo ex-cunhado, Evangelista Rocha dos Santos, a mando do irmão dele, Ronivaldo Rocha dos Santos, companheiro da vítima na época.

Mesmo gravemente ferida, Ana Clara fingiu estar morta para sobreviver. Após a fuga do agressor, ela conseguiu se arrastar até o corredor da residência e pedir ajuda a um vizinho, apesar da grande perda de sangue. A Polícia Militar chegou ao local cerca de duas horas depois.

Inicialmente, a jovem foi levada ao Hospital Regional do Sertão Central, mas precisou ser transferida para Fortaleza para realizar o procedimento de reimplante. A transferência aérea foi cancelada devido às condições climáticas, e ela precisou seguir de ambulância por estrada, permanecendo consciente durante todo o trajeto.

Ana Clara também relatou que vivia um relacionamento abusivo e controlador. Segundo ela, o companheiro a impedia de estudar para o concurso da Polícia Militar, exigiu que abandonasse a faculdade de Nutrição e controlava até as roupas e maquiagens que utilizava.

“Ele ameaçava que, se eu chegasse a deixá-lo, ele mataria minha família e, por último, me mataria”, afirmou.

Os dois irmãos estão presos, foram indiciados e respondem por tentativa de feminicídio.

Apesar do trauma, Ana Clara afirma que pretende retomar os estudos, voltar à faculdade e realizar o sonho de ingressar na Polícia Militar. Ela também deseja usar sua história para incentivar outras mulheres a denunciarem casos de violência.

“Eu quero ser uma voz para todas as mulheres que passam por isso. Se você não quer que aconteça com você o que aconteceu comigo, então se afaste, procure ajuda, denuncie”, declarou.