Dia da Consciência Negra: Eles venceram e ocupam cargos de alto prestígio em nossa região

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Nesta quarta-feira, 20 de novembro, é comemorada (não sei se é esse o verbo correto para ser usado) o Dia da Consciência Negra no Brasil.

Você aí que está lendo essa reportagem, acha que existe racismo no Brasil? Em tempos de uma onda conservadora crescente, este tema está cada vez mais banalizado e ridicularizado. Infelizmente, não são poucas as pessoas que acham que isso não passa de puro e simples vitimismo.

Aproveitando a data tão importante, entramos em contato com três pessoas negras que possuem posições de muito prestígio em nossa região. Eles fazem parte de uma minoria que ocupam cargos tão nobres dentro da sociedade. São eles: Amanda Ribeiro dos Santos, Promotora de Justiça da Comarca de Jaguapitã; Renato Sant’anna, Promotor de Justiça da Comarca de Centenário do Sul e Alysson Tinoco, Delegado da Polícia Civil de Colorado.

Pedimos para eles dissertarem sobre o tema e citar exemplos de situações de racismo que já passaram em suas vidas. E como era de se esperar, todos foram vítimas desse mal histórico que acompanha rotineiramente os negros brasileiros.  Veja:

Amanda: “POR ALGUNS ANOS PERDI O TEMPO DEDICADA A PROCEDIMENTOS DE ALISAMENTO NO CABELO, BUSCANDO ACEITAÇÃO DA SOCIEDADE”.

A primeira a explanar sobre o tema é a Promotora da Comarca de Jaguapitã, Amanda Ribeiro dos Santos. Em 2018 ela foi protagonista de uma reportagem sobre o Racismo Institucional no site do Ministério Público do Paraná, veja AQUI. Negra, mulher, mãe, Promotora de Justiça, vencedora… Acompanhe o que ela disse sobre o tema: 

“Recentemente, a reflexão e as ações contra o racismo tem encontrado um modo de resistência moderna, muitas vezes desqualificando-as como vitimismo e ‘mimimi’. São novas formas de reforçar as amarras que impedem a construção de uma sociedade livre, justa e solidária para todos os brasileiros.

A grande maioria das pessoas não tem esse momento de questionamento, diante das estruturas racistas sobre as quais a sociedade brasileira foi fundada, que precisam ser apontadas e reorganizadas. Não são estudadas de modo crítico, por exemplo, a contribuição dos povos africanos para a formação da cultura brasileira, a luta pelo fim da escravidão e a omissão estatal pós-escravidão, ao longo da vida de escolar de muitos alunos.
No Brasil, o racismo é muito evidente, basta uma análise crítica do problema. É preciso apontar que a injúria racial gera a indignação da grande maioria das pessoas, o que já é um grande passo. Porém, há o racismo estrutural, o qual significa, em resumo, a exclusão de pessoas pertencentes a grupos que são racializados de determinados espaços, bens e serviços. Qual é o grupo que ocupa majoritariamente os cargos de promotores, juízes e parlamentares?
Durante a minha vida, cito como recorrente o fato de crescer ouvindo que o meu cabelo era ruim e por alguns anos perdi tempo dedicada a procedimentos de alisamento, buscando aceitação da sociedade.  Era uma criança, violada todos os dias, por simplesmente existir com o seu cabelo cheio e volumoso. E quantas outras são e continuam violadas nesse aspecto. É um exemplo que pode ser utilizado, tanto na injúria racial, como no racismo estrutural, pois foi uma realidade vivenciada em todos os ambientes que eu frequentei. No meu caso, o estudo libertou a alma e o coração, o que recomendo a todos.
Por fim, é extremamente louvável que o veículo de imprensa Terceira Opinião, marcado por uma visão acessível de fornecer informações de utilidade pública à sociedade, tenha essa sensibilidade para abordar o tema”.
Alysson: “ME TRATAM COM CERTA DESCONFIANÇA POR CAUSA DA COR E QUANDO SABEM QUE SE TRATA DE UM DELEGADO O DISCURSO MUDA”
O Delegado da Polícia Civil de Colorado, Alysson Tinoco, é figura de destaque no meio policial. Respeitado e de uma humildade exemplar, apesar da pouca idade, já comandou grandes operações policiais no estado do Paraná. Ele respondeu nossa reportagem via Whatsapp e foi muito feliz ao abordar o tema. Veja: 

 

Renato: “O PORTEIRO DE UM PRÉDIO EM COPACABANA QUIS CHAMAR À POLÍCIA ACHANDO QUE O CARRO QUE ESTAVA LÁ NÃO ERA MEU”.

Um homem de caráter invejável e de uma história que daria um bom livro de autoajuda. Seu passado sofrido o tornou um ser humano muito sensível no trato com as pessoas mais humildes. Esse é o “Doutor Renato” (assim que ele é conhecido na Comarca). E, mais uma vez, ele foi muito feliz ao responder nossa reportagem, veja:

“Hoje isso foi matéria do O GLOBO: “Brasil tem apenas um ministro negro nos tribunais superiores de Justiça”

No último Cruzeiro x Atlético, tivemos um episódio lamentável no Mineirão, quando o 0 x 0 ficou em 2º plano, e expressões como “olha a cor da sua pele, macaco etc” chocaram o país. Infelizmente, ainda existe muita gente que pensa assim.

Por isso eu entendo que é sim importante o debate sobre esse tema, e o dia 20 de novembro estimula que as pessoas voltem a refletir sobre essas questões, sobre o porquê de ainda acontecer esses episódios.

É incontroverso que a falta de representatividade de negros é uma realidade que atinge várias profissões na sociedade brasileira, principalmente quando isso está relacionado a carreiras que demandam maior atividade intelectual. Eu cresci no subúrbio do Rio de Janeiro, ouvindo do som das ruas: você tem que ser jogador de futebol ou pagodeiro, não adianta estudar! Infelizmente, essa mentalidade ainda está arraigada em muitos lares. E é óbvio que cada um pode ser o que bem entender, desde que lute pelo seu espaço, se aprimorando, aperfeiçoando, se aculturando, e procurando assumir mais responsabilidades. Embora seja inegável que parece ter certa razão Mano Brown quando vocifera:“tem que acreditar”.

Desde cedo a mãe da gente fala assim: ‘filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor.’

Talvez seja um exagero ter que ser duas vezes melhor, mas percebemos que pela quantidade de negros que existem no Brasil, e vendo a maioria dos lugares que ocupamos na sociedade parece haver significativo descompasso. Uns insistem no argumento que só a meritocracia é o bastante para corrigir essas discrepâncias, mas me parece que não, pois essas ofensas que seguem acontecendo diariamente nos mostram que ainda há muito o que se fazer para erradicarmos essa,  suposta, primazia da cor da pele de uns em detrimento da de outros.

Sobre ter passado por algum episódio racista: “Estava trabalhando num prédio no Rio de Janeiro, no Bairro de Copacabana, à noite, consertando o computador de um morador, e após a realização do trabalho, houve a troca de turnos na Portaria, e o porteiro disse que eu não poderia sair com o carro 0 km de um dos condôminos do prédio, que eu estava levando embora o carro dele, que ele iria chamar a polícia. Aí tive que pedir para interfonar para o apartamento do meu cliente que eu tinha acabado de fazer o trabalho, para que ele descesse e esclarecesse que o carro era meu e não de qualquer outro morador do prédio!”.

 

Em reportagem da revista Carta Capital, de acordo com o Atlas da Violência 2017, a população negra também corresponde a maioria (78,9%) dos 10% dos indivíduos com mais chances de serem vítimas de homicídios.

Sobra igualdade salarial, apenas em 2089, daqui a 70 anos, brancos e negros terão uma renda equivalente no Brasil. A projeção é da pesquisa “A distância que nos une – Um retrato das Desigualdades Brasileiras” da ONG britânica Oxfam, dedicada a combater a pobreza e promover a justiça social.

Em média, os brasileiros brancos ganhavam, em 2015, o dobro do que os negros: R$1589, ante R$898 mensais.

Faça um exercício mental e tire o racista que ainda existe dentro de você. Pense nisso!

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